Lilly Farias
Digo adeus pela segunda vez. Longos anos de distância e breves instantes de felicidade.
Foram usadas algumas desculpas para não viver e há covardia demais para tentar, enquanto lá fora continua chovendo. Conseguimos provar que o tempo não muda muito a natureza das coisas.
Fiz um poema visual. Várias partes do teu rosto, sempre tão fragmentadas. Fragmentadas como esses anos, fragmentadas como o teu silêncio e como as lembranças que eu guardo dos teus olhos, do timbre da tua voz e dos teus cabelos que têm a cor do sol da manhã de maio.
Eu não lembro quando você chegou, parece ter estado sempre presente em algum lugar discreto da minha história. E agora surgiu iluminando e tomando todo o espaço das imagens cotidianas. Uma luz que deixa todo o resto da paisagem desfocada.
Agora que você foi embora mais uma vez, a janela está aberta e o vento deixa o ar com cheiro de lírios do campo. Eu deixo os sentimentos antigos guardados e espero pela sua volta daqui a mais alguns anos.
Lilly Farias
O tempo presente e o espaço de "estar" é uma prisão. Estamos presos no momento presente. Enclausurados na percepção dos cinco sentidos, estáticos em uma realidade iludida.
A capacidade de transcender a realidade humana é mínima. Somos extremamente limitados.
Lilly Farias
A amiga que alegrava minhas manhãs acaba de virar a curva daquela estrada e não consigo mais enxergar sua sombra que se afasta. O rapaz meio sombrio, que era tão boa compania para um vinho barato nos fins de tarde monótonos, eu não vejo mais. As músicas antigas, cantadas e gritadas por uma juventude com cheiro de revolução pararam de tocar. Os papéis ficam amarelos e cheios de poeira nas caixas. E eu encaixoto meus sonhos, as imagens que guardei na lembrança, os cheiros e gostos da juventude. Encaixoto os velhos sentimentos e levanto, ainda atordoada, para dar novas cores ao pouco que sobrou.